EMOÇÃO A FLOR DA PELE
2 de julho de 2009 | 21:20
Tanto se fala de crise que a palavra entrou no cotidiano e, de gasta, já perdeu seu verdadeiro sentido. É crise econômica mundial. Crise política. Crise ambiental. Crise de identidade… Enfim, são tantas as crises, que a palavra crise caminha para as vias da banalização.
Mas, o que é realmente crise? E falo no seu sentido amplo.
Uma crise implica em ruptura repentina do equilíbrio, gerando momentos de tensão, onde tudo se apresenta como de difícil solução. É uma situação grave em que os acontecimentos, rompendo com padrões tradicionais, perturbam as organizações e as pessoas.
Ao se falar de crise e de como ela afeta as pessoas, é preciso, antes, identificar sobre quais pessoas estamos nos referindo, uma vez que pessoas de culturas diferentes expressam seus sentimentos de formas características.
Um dos traços culturais mais visíveis de um povo está relacionado ao seu padrão de expressão emocional, sua maneira de demonstrar os sentimentos. Assim, consideramos que existem povos mais razão e povos mais emoção. Naqueles mais razão, a emoção não é claramente demonstrada e os sentimentos são controlados, sendo muitas vezes não explicitados. Já os povos da emoção, expressam abertamente seus sentimentos por meio de gestos e palavras. Ao primeiro grupo pertencem os que habitam a América do Norte, a Escandinávia e o Norte da Europa. Os do segundo grupo vivem na Europa Latina, América Central e do Sul e se juntam a eles os povos árabes.
Na cultura da Emoção, e de forma mais especifica no Brasil, observa-se que não há uma separação clara entre o trabalho na empresa e os relacionamentos construídos com colegas. A vida pessoal e a vida de trabalho se confundem, transformando o ambiente de trabalho em um local de intimidade e de amizade. Por seu lado, as empresas, ciosas do relacionamento de suas pessoas, pregam que os colaboradores convivem como uma família. Tal cultura paternalista, deixa transparecer aos que nela trabalham, ser a empresa responsável pelo bem estar das pessoas.
E, de repente, surge uma grande crise. E, crises desencadeiam emoções.
São pressupostos de emoções:
. emoções são particulares,
. pessoas reagem emocionalmente de forma diferente diante de crises,
. as emoções diferenciam o que percebemos, pensamos e fazemos,
. emoções contaminam as pessoas.
Crises geram nas pessoas emoções desagradáveis de medo, raiva e desconforto. Diante dessas emoções, as reações pessoais variam de um estado de paralisia a um estado de alerta, que impulsiona para a ação. A paralisia é visível quando surge a defensividade, a própria rejeição da crise como sendo irrelevante, e o fato de culpar os outros como responsáveis pelo acontecido. As pessoas em alerta vivem a “ansiedade da sobrevivência” e partem para ações positivas, como buscar alternativas para se salvar, salvando a empresa. Também há espaço para ações negativas. E elas surgem por meio da competição interna nas equipes, onde o lema da cooperação passa a ser “salve-se quem puder”. Nesse momento, a antiga equipe transforma-se em um bando, onde passa a vigorar o individualismo.
No contexto da crise, os estados emocionais individuais – medo, raiva e desconforto, passam a estados emocionais grupais por contaminação e criam uma sintonia e sinergia entre os envolvidos na situação. Nesse momento a afiliação entre as pessoas cresce, por sentirem-se todos ameaçados e na mesma situação – estão “todos no mesmo barco”.
Em momentos de crise, segundo Martha Alles, sobressaem aqueles que possuem a “Competência do Naufrago”. A capacidade de sobreviver e ajudar a sobreviver a empresa ou a área em que trabalha em épocas difíceis. Os comportamentos principais são:
. ser capaz de identificar tendências e dificuldades da empresa,
. analisar o contexto,
. buscar oportunidades de ganho para sua área e empresa e propor ações,
. controlar as ameaças,
. manter a energia e a crença – FÉ
Situações de desconforto levam-nos a transformar situações. A tensão decorrente funciona como base para a criatividade. Estamos falando da tensão criativa, aquela que traz o incomodo e nos impulsiona ao novo e faz crescer. No entanto, em crises nas quais o individuo percebe-se impotente e sem alternativas, a tensão promove o medo e o desconforto e gera a baixa a produtividade. O importante nessa hora é entender as pessoas e ajudá-las nessa travessia. A redução da tensão se faz por meio do conhecimento, que vem do dialogo rápido, franco e aberto promovido pela organização.
A comunicação deve acontecer em dois momentos:
No primeiro momento serão dados a conhecer os fatos e o posicionamento da empresa diante da crise. Tal iniciativa objetiva não deixar espaço para especulações, pois estas são extremamente prejudiciais ao clima interno da empresa.
Num segundo momento, o objetivo da comunicação é informar a posição e direção que a empresa está tomando, sustentando todas as suas ações nos valores, crenças e princípios que norteiam a organização.
Tratadas como adultas, as pessoas serão capazes de ouvir notícias difíceis, desde que sejam verdades. E mesmo abaladas e duvidosas do futuro, mantêm o ambiente de trabalho positivo.
Dayse Fonseca Carnaval Ferreira
Participação no Painel: “Clima organizacional é um estratégia diferenciada em tempos de crise?” – XIII Congresso Mineiro de Recursos Humanos
Belo Horizonte, 25 de junho de 2009


